Isto é amor!!!!!
QUE TORCIDA LINDA
Isto é amor!!!!!
QUE TORCIDA LINDA

Poesia em preto e branco, como um filme
de Chaplin


morte” de Riquelme para o futebol, um perfil de jogador parece ter sucumbido também. Román foi a última espécie “bem-sucedida” de uma estirpe de craque cerebral, que impõe sua habilidade por meio da cadência reflexiva, de uma aparente lentidão de movimentos. A Argentina, maior berço de meio-campistas com tais características, nomeia-os de enganche, o “gancho”, aqueles com a responsabilidade de “enganchar” os sistemas defensivo e ofensivo da equipe, atuando na faixa central dos três terços do campo, de uma intermediária à outra. Por não terem a obrigação de marcar ou ocupar espaços quando atacados e agredir com a posse de bola, parecem fadados ao desprezo dos es
quemas táticos atuais. Riquelme foi o último sobrevivente.
ação destes raros “ganchos” com a própria personalidade. Não raras as vezes são sujeitos introvertidos e absortos durante a partida. Cônscios da preciosidade de cada jogada, executam um simples passo com a delicadeza e a maestria de uma bailarina picando o palco com a ponta dos pés. Desta especial genealogia estica-se uma ramificação reservada de jogadores, como Alberto Schiaffino, Ademir da Guia, Zinédine Zidane e, claro, Román Riquelme.
a partida contra o Grêmio, no Olímpico, em 20 de junho, é considerado por muitos como a maior atuação individual de um jogador em finais do torneio sul-americano. Os dois gols do jogo saíram de seus pés. Como principal “cabo eleitoral” do presidente do clube, desfilando em carro aberto por três ininterruptos dias nas ruas da cidade, Mauricio Macri foi eleito, em 24 junho, prefeito de Buenos Aires. Sempre há os que não deixam as cinzas de seus mortos se perderem na memória.
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Em 29 de julho deste ano, Alejandro Sabella, o novo técnico da seleção argentina, fez sua primeira coletiva como o comandante da esquadra albiceleste, equilibrando uma bigorna nos ombros pós-trauma Copa América: “A mágica tem de ressurgir”, garimpou aqui e ali, aferroando a “ordem do dia” nas mais variadas conversas com a imprensa.
E “a mágica ressurgiu” no dia 18 de agosto. Riquelme está de volta à seleção da Argentina, na aguardada convocação de Sabella para os dois jogos do selecionado contra o Brasil, na reedição dos confrontos pela Copa Rocca – agora com a horripilante alcunha de “Copa Dr. Nicolás Leoz”. Obedecendo a determinados critérios técnicos individuais da lista dos convocados de Sabella, a imprensa esportiva argentina arrisca o seguinte escrete titular para as partidas: Agustín Orión (Boca); Pillud (Racing), Sebá Domínguez (Vélez), Desábato (Estudiantes) e Papa (Vélez); Cristian Chávez (Boca), Verón (Estudiantes), Hector Canteros (Vélez) e Riquelme (Boca); Boselli (Estudiantes) e Juan Manuel Martínez (Vélez).
Na “prancheta”, a distribuição tática é muito idêntica ao Boca-2007. A meia “cancha” desenha-se num losango, com Cristian Chávez fixo na proteção da defesa e Canteros (esquerda) e Véron (direita) avançando e recuando verticalmente entre as intermediárias. Já o ataque pode atuar como um compasso, com a “ponta seca” Boselli centralizado na defesa adversária e J. M. “Orteguita” Martínez atuando pelas extremidades do campo.
Mas tudo isso é nada sem a mágica do enganche. Como se diz por lá, "sempre há os que não deixam as cinzas de seus mortos se perderem na memória".
por Luciano Melo




por Luciano MeloJá a definição espacial do futebol americano é esquadrinhada metricamente por traços que demarcam as jardas, como a cartografia do mapa norte-americano ou a conquista territorial por meio de estradas de ferro que cortam o deserto estadunidense. Aliás, este domínio de territórios - mote do football ianque - pode representar a devoção da sociedade norte-americana em desempenhos e resultados “visíveis”. Não é por acaso a insatisfação pública com o governo atual quando Barack Obama sugere cortes orçamentários de gastos públicos para artefatos belicistas.
As estratégias de posicionamento numa partida de futebol ( rúgbi, futebol americano ou soccer) também definem a função a ser desempenhada por cada praticante no campo de batalha, embora o soccer permita rupturas na operacionalidade do esquema tático através de lances improvisados que enganam e desestruturam a organização do oponente. Chico Buarque, em artigo para o Estado de São Paulo (21.06.98), ao assistir em Paris a uma pelada entre meninos europeus e filhos de imigrantes, revela que os “ricos” tendem a se comportar como os “donos do campo”, privilegiando o controle do jogo por meio da ocupação estratégica no terreno, o toque de bola previamente estabelecido e a marcação ordenada no adversário; já os “pobres” tendem ao controle da bola, às peripécias individuais e ao “desapego” de organização sistemática campal em prol do drible curto e rasteiro em direção à meta contrária. Neste sentido, pode-se cotejar tal dualidade de divisões sócio-culturais em modalidades esportivas e o desempenho, salvas raras exceções, de determinados “grupos”. Para as camadas favorecidas ou dominantes, obtêm-se melhor atuação em práticas esportivas que notabilizam a funcionalidade estratégica ou coletiva, como o rúgbi, o tênis, o vôlei e a natação; em outras, quando a modalidade admite que o improviso surpreenda o inimigo, em casos como o soccer, o basquete, e o boxe, o recurso do drible ou da finta equipara as “desigualdades” de classes através do domínio e da habilidade individual na execução do exercício.
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Este texto ainda continua...

Será difícil para o cinema brasileiro se desvencilhar das amarras de Tropa de Elite 2. Os fuzis apontados por Capitão Nascimento e sua trupe para a classe média pseudomoralista deste país refletem olhos fumegantes à espera de um contentamento efêmero e instantâneo, entre a fugacidade da reflexão social (ou moral?) e uma breve mea culpa pelo voyeurismo de tragédias anunciadas por vidas errantes, que pagam um preço “altíssimo” por escolhas mal sucedidas. Escolhas estas que apoiam a parede da narrativa até o momento delas mesmas desmoronarem, passando de escoras a tijolos frágeis de muralha derretida, incomodando-nos na poltrona almofadada da sala de projeção. O xis da questão é que a redenção final a qual se acostumou o público não é necessariamente o que ocorre em Bruna Surfistinha, filme debute de Marcus Baldini, o que talvez provoque certo desconforto ao final da exibição – menos pelo final desafiador que pelas arestas mal aparadas ao longo da película.
Mas deixemos claro que Baldini mais acerta do que erra. Roteirizou a várias mãos O Doce Veneno do Escorpião, da “cinderela trash” (como o próprio diretor aventa) Bruna Surfistinha, ou simplesmente Raquel Pacheco, a menina adotada em berço de ouro que largou a casa bem montada, a escola de elite paulistana e o silêncio do pai para provar (a si mesma?) (a todos?) de que era possível sobreviver às próprias custas – mesmo por alternativas pouco ortodoxas. Durante todo o tempo, o filme persegue as razões destas escolhas, como se a protagonista tentasse explicar, perante a moralidade aguçada do espectador, que a condenação por se prostituir não é justa: não há culpados ou vítimas – apenas escolhas, que nem sempre entendemos porque tomamos. O que para muitos diretores seria um prato cheio, Baldini faz de Bruna sua cinderela “às avessas”, sem nenhuma martirização ou o prosaico “refém de uma vida”: apenas a expõe pelo coloquialismo do deslumbramento, a aceitação de ser a “menina mais famosa do colégio ou sacar que os relatos num blog aglutinariam fama e dinheiro. Nada mais prosaico para uma menina de dezoito anos – mas não pelo caminho traçado por Surfistinha.
Daí resulte uma das derrapagens de Marcus Baldini. Como o mentor José Padilha, retoma a narrativa em “off” da protagonista para costurar o que ao leigo espectador tenha lhe escapado ou, como um coro edipiano, dar voz à consciência moralizadora. Em nenhum destes ou em outros casos, isso parece ter eficiência para Bruna Surfistinha. Se com muita boa vontade isso se explicava no piegas discurso “heroico-patriotico” de Nascimento, na personagem de Deborah Secco soa como aquela mea culpa do “não é isso que eu estou dizendo” ou “não foi isso que eu quis dizer”. Em outras palavras, fica o dito pelo não-dito. Tais reflexões freudianas poderiam ser, por exemplo, mais reveladoras em posts do blog. Por sinal, a “blogueira” Surfistinha foi mal explorada na película, restringindo-a apenas em mínimas cenas na frente da tela, em variações de caras e bocas, sem muito dizer o porquê. Se a equação “livro + roteiro = filme” teve seu embrião nas divagações numa tela de computador, isso passa à margem das ações no filme de Baldini, como, aliás, o fez tão bem David Fincher com a sua A Rede Social.
Mas se é para rezar na cartilha de Padilha da necessidade de “o” / ”a” protagonista, Baldini acerta o alvo na escalação de Deborah Secco para o papel. Embora esteja eqüidistante da menina Carol em “Confissões de Adolescente”, e por isso a fase “mocinha” de colegial seja um pouco forçada nos dias atuais, principalmente quando contracena com atores “da sua idade”, Deborah “sobra” como Surfistinha. Convence na cena de sua “primeira vez” profissional com o Huldson, interpretado por Cássio Gabus Mendes, um cliente bem-sucedido que não deixa claro se deseja ser amante ou pai de Bruna. Porém, um dos episódios mais comprometedores do filme, a cena do jantar de luxo do casal, Huldson recupera as joias da mãe de Bruna, roubadas por uma prostituta. Se não bastasse faltar as palavras para ela, Huldson emenda uma “pérola junguiana”: “Acho que você ainda não se encontrou dentro de si”, ao qual Surfistinha rebate “Se você me encontrar, você avisa?” É dose, não?
Já arrebatadora sequência na Love Story beira a perfeição. Baldini capta o espírito moulin rouge de Deborah, desde sua entrada triunfal até “perder” os sentidos nos passos de pole dance, a dança no poste, culminando com a “propina” ao policial no meio da Rua Augusta. É o único momento em que a atriz cede terreno a sua antagonista, a noite paulistana de casas e calçadas de prostituição. Mas é nesta relação intrínseca com a São Paulo das boates da Consolação aos becos da Cracolândia que Surfistinha sublima seu hiperego, como se a cidade existisse a seus pés. Baldini “divide” com “Carlão” Reichenback, Sganzerla e Ozualdo Candeias esta tomada de rara felicidade da cinematografia paulistana atual. E faz Deborah Secco se afeiçoar a Sandra Bréa no plano-sequência no interior do veículo, para depois “jogar-se” com o tronco para fora da janela. Bravo!
Estamos na metade do filme e, de agora em diante, Baldini perde a mão. Parece que falta pouco tempo para a “ascensão e queda” de Bruna Surfistinha, do atendimento prive no flat de luxo alugado à derrocada financeira pela cocaína. Tudo recheado por diálogos clichês e reflexões casuais. Tudo motivo para mais narração em “off”, como se quisesse amarrar tudo, embrulhar para presente e entregar para o espectador mais desatento. Desperdício de tempo e paciência.
Publicitário de profissão, Marcus Baldini sabe da “alma do negócio”. Meses antes à edição final de Bruna Surfistinha, o diretor enviou uma cópia pré-editada para Thom Yorke, vocalista do Radiohead. Se gostasse do que visse, pediria o arrasa-quarteirão Fake Plastic Trees na trilha sonora. Pedido aceito, mas parece enxertado “a fórceps”. Ou artificial.
Como a cena final, em que Deborah abre a porta para você, desafiando-o a entrar.
Você recusaria?
Her green plastic watering can
For her fake Chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man
In a town full of rubber plans
To get rid of itself
O seu regador verde de plástico
Para a sua falsa planta chinesa artificial
Na terra artificial de plástico
Que ela comprou a um homem de borracha
Numa cidade cheia de planos de borracha
Para se livrar de si mesma